Senhor Presidente,
Senhoras e Senhores Deputados,
muitas sociedades ditas “primitivas”, como a dos índios brasileiros, têm os chamados “rituais de passagem”, cerimônias em que os jovens tornam-se adultos. Em certas tribos, por exemplo, os jovens têm de suportar a picada de centenas de formigas, pular de penhascos ou enfrentar, sozinhos e sem armas, a noite da floresta.
Surpreende, no entanto, que rituais envolvendo humilhação, violência e crueldade existam na sociedade urbana brasileira, e no ambiente onde menos seria de se esperar: as universidades. Todos os anos, há muitos anos, tomamos conhecimento de atos criminosos praticados contra os estudantes que ingressam nas universidades.
Tais atos, praticados pelos veteranos, causam não apenas constrangimento e humilhação, mas problemas de saúde, mutilações e até mortes por afogamento, ferimentos ou coma alcoólico.
Nas ruas de nossas cidades, vemos, por ocasião dos processos seletivos, jovens de classe média com o cabelo raspado, cobertos de tinta, pedindo esmolas nos cruzamentos de trânsito, para financiar as festas de “recepção” que os veteranos promovem para esses calouros. Isso é só o começo da humilhação, que pode atingir, e todos os anos atinge, graus intoleráveis.
Recentemente, a televisão mostrou o caso de calouros de um curso de medicina sendo obrigados a esfregar fígado de boi, podre, em seus corpos. Sob ameaça de espancamento, esses calouros eram obrigados a dar “beijos de língua” nessa carne podre. Cerveja era cuspida pelos veteranos no rosto dos calouros, constrangidos, ainda, a ficarem nus e a lutar na lama.
Em Mogi das Cruzes, Grande São Paulo, os veteranos do curso de medicina alertavam os calouros com pichações na entrada da cidade “Se chorar, vai ser pior”. Ora, os calouros, adolescentes vindos de outras cidades, são recebidos da pior forma possível, às vistas de praticamente toda a sociedade. Como podemos tolerar isso, Senhoras e Senhores?
Tapas na cara, comida estragada, insultos, nudez forçada, ameaças, vômito, fezes e coma alcoólico também fazem parte desse tipo de ritual universitário, além, é claro, de drogas ilegais. Há casos de calouros que desistem de cursar a universidade depois desse tipo de “festa de boas-vindas”. Muitos dos que resistem, infelizmente, tendem a achar normal tal tipo de comportamento, e a repeti-lo, quando forem veteranos.
Não estamos falando aqui de veteranos de um presídio, ou de uma instituição de recuperação de menores, mas de estudantes prestes a se formarem em universidades particulares cuja mensalidade chega a cinco mil reais.
Medicina e veterinária são, ao que parece, os cursos onde os trotes são mais violentos. Algo que não condiz, em absoluto, com o caráter dessas profissões – aliás, com o caráter de nenhuma profissão. Que médicos são esses, que a sociedade brasileira está formando? Que cidadãos são esses, que estão vindo das classes sociais mais altas? É possível acreditar no juramento de Hipócrates feito por pessoas assim? Vocês se submeteriam a essas pessoas, na hora de uma cirurgia? Pois é possível que já estejam se submetendo.
Ora, é inadmissível que qualquer parte da vida social, especialmente da vida social acadêmica, seja permeada por esse tipo de brutalidade criminosa. É preciso responsabilizar administrativa e penalmente não apenas os agressores, mas as universidades, que certamente dispõem de meios para detectar e coibir a prática desses rituais animalescos. Espero que a legislação e a jurisprudência caminhem nessa direção, e que a sociedade deixe de ser complacente com o trote universitário, cuja gravidade e periculosidade exigem sua imediata abolição.
Obrigado.